Comunidades quilombolas, Torto Arado e a relação com a terra

pela educadora Amanda Abe (bióloga)

No 1º curso do nosso Portal Jornadas, estamos realizando uma Jornada de leitura sobre a obra “Torto Arado”, de Itamar Vieira Júnior. A obra retrata a trajetória das irmãs Bibiana e Belonísia, iniciada com um grave acidente de infância que fez com que uma passasse a ser a voz da outra. O relato dá indícios claros da ancestralidade das irmãs: elas são descendentes de escravizados e vivem, junto com a família, em regime de servidão, na fictícia Fazenda Água Negra, na Bahia.

“Vivíamos como gado, trabalhando sem ter nada em troca, nem mesmo o descanso, e as únicas coisas a que tínhamos direito era morar lá até quando os senhores quisessem”.

Um dos aspectos que merece um olhar cuidadoso é a relação que Zeca Chapéu Grande, pai das meninas, e, em especial, Belonísia, estabelecem com a terra onde vivem. Sem receber rendimentos monetários, a família depende desta para suprir suas necessidades básicas ou, podemos dizer, vitais: a terra é chão de sua casa sem piso, é fonte de comida e água, é berço dos filhos, túmulo dos avós, palco de manifestação dos encantados e devoção ao sagrado. A terra é, para o quilombola, a vida e, em “Torto Arado”, ela ganha quase caráter de cenário e de personagem.

“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico à procura do coração”.

A conexão vital entre a família de Zeca Chapéu Grande e a terra se mostra totalmente diversa daquela que o Senhor, dono da terra, estabelece com ela. Do viés do Senhor, a terra é espaço de exploração. Espaço de esgotar os recursos naturais (orgânicos e inorgânicos) ao corpo da gente que nela vive. O Senhor, que exige um terço do alimento plantado, cultivado e colhido por um povo miserável que nada tem, nem mesmo a terra que habita.

Não é difícil notar que o que “Torto Arado” apresenta é uma narrativa atual travestida de passado. Ou uma narrativa do passado mergulhada no presente. Segundo a Fundação Palmares, existem hoje quase 3.500 povos quilombolas no Brasil, como retratado na obra. Descendentes de escravizados, com identidade étnica-racial, economia, costumes e cultura próprios, vivem em terras conquistadas pelos seus ancestrais, que lutavam pela vida e liberdade em  um sistema colonial explorador. A constituição de 1988 conferiu a esses povos o reconhecimento da propriedade das suas terras, um efeito tardio que visa reparar uma história de opressão, silenciamento e violência.

Apesar da legislação vigente, viver em um quilombo hoje continua sendo um ato de resistência e luta. Assim como a família de Zeca Chapéu Grande, os quilombolas da atualidade vivem uma série de ameaças em suas terras, pelas quais precisam seguir lutando para preservar o que já lhes pertence por direito.

Denúncias revelam tentativas de desapropriação de povos quilombolas que habitam suas terras há 300 anos. Dentre as ameaças que já são de conhecimento público destacam-se: invasão de território, expansão ilegal de monoculturas, leilão ilegal de terras quilombolas e mineração.

Intimidação e violência, tal como vivenciaram Bibiana, Belonísia e a família delas, mas com origens diferentes. De um lado, o agronegócio que tenta expandir ainda mais os seus já “lati-fúndios”. Do outro, grandes empresas, como papeleiras e mineradoras, que também procuram nas terras dos quilombolas oportunidades de ampliar seus lucros.

A problemática é social, cultural, emocional, ética e ambiental. Os povos quilombolas vivem, em geral, em regime de agricultura familiar e, algumas, até de agroecologia: duas formas de cultivo que conservam boa parte dos recursos minerais, da saúde e da fecundidade do solo. Esse manejo da terra é o oposto do que se pratica no agronegócio. Nesse, segue a lógica da exploração da terra, da monocultura que exaure os recursos, dos pesticidas e agrotóxicos. O conflito está montado.

Os povos quilombolas, como retratado na obra “Torto Arado”, viveram e vivem repressões de todos os lados. Uma população tradicional, com seus costumes, cultura e tradições, de importância histórico-cultural-ambiental imensurável resiste, ainda hoje, às ameaças aos seus territórios e à sua existência. A leitura crítica e cuidadosa da obra de Itamar Vieira Júnior se faz, portanto, essencial, ao trazer a realidade desses povos à baila, expondo suas vidas, suas dores e suas lutas, instigando inquietações e alimentando resistências.

FONTES:
JUNIOR, Itamar Vieira. Torto Arado. São Paulo: Todavia, 2019.  
http://conaq.org.br/coletivo/278/ 
https://www.palmares.gov.br/
https://racismoambiental.net.br/2022/01/24/torto-arado-e-o-direito-da-mulher-camponesa/
https://www.politize.com.br/equidade/blogpost/direitos-dos-quilombolas-no-brasil/
https://www.seculodiario.com.br/meio-ambiente/novo-avanco-da-suzano-contra-territorio-quilombola-e-denunciado-ao-estado-e-mpf
https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2022/05/22/terra-em-que-vive-comunidade-quilombola-e-leiloada-para-pagar-divida-de-ex-prefeito-no-maranhao.ghtml
https://reporterbrasil.org.br/2022/05/mineracao-arada-quilombolas-barram-avanco-de-empresa-inglesa-na-chapada-diamantina/
https://www.cartacapital.com.br/opiniao/o-brasil-profundo-em-torto-arado/
, todos os sites foram acessados em 14 de junho de 2022.

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