Carta-Manifesto
Fundação do Portal Jornadas

Rio de Janeiro, 22 de dezembro de 2021

Contar histórias e intercambiar saberes é uma prática milenar. Desde os tempos mais remotos, o homem vem tentando elaborar sua existência no mundo por meio das histórias. Os griôs, por exemplo, espalhados em grande parte pela África ocidental, são os responsáveis até hoje, em suas comunidades, por transmitirem histórias, dentre demais funções.  Além disso, outras referências também dessa prática são os textos épicos, muitos deles propagados apenas oralmente. Segundo pesquisadores, a Epopeia de Gilgamesh pode ser considerada o primeiro registro desse gênero, datada aproximadamente do séc. XXII ao séc. XII a.C.. Homero – que pode ser um ou muitos – já na Grécia de outrora fez repercutir a história da Ilíada e da Odisseia, livros que narram trajetórias do destemido povo grego, e de seus deuses. Depois de Homero, outros tantos se aventuraram a serem porta-vozes de um coletivo: Vírgílio, em Eneida; Luiz Vaz de Camões, em Os Lusíadas; Dante Alighieri, em A Divina Comédia.

Com o avançar das eras, essa maneira de contar histórias foi se modificando. A oralidade foi perdendo espaço e relevância social. Por volta de 1450, o alemão Johannes Gutenberg (1400-1468), inspirado em muitas tentativas anteriores de outros inventores, apresenta à humanidade a invenção da imprensa. A prensa móvel significou não só uma revolução na produção em cadeia dos livros como também revolucionou a forma de seu conteúdo. Não por acaso, o espanhol Miguel de Cervantes, em 1605, publica a aventura ímpar do cavaleiro andante e seu fiel amigo na obra monumental Dom Quixote de la Mancha – o que viria a ser o marco da fundação do romance.

O gênero romance teria, então, surgido da tradição das narrativas épicas. Se em Ilíada, Aquiles nada mais é do que uma metonímia do povo grego; Quixote passa a ser a metonímia dele mesmo, numa busca incessante pela compreensão do próprio caminho, numa quase decepção com o coletivo e com os novos tempos que se avizinhavam. Inaugurado por Cervantes, o romance vai se desenhando, assim, como a trajetória individual de um herói e não mais de um povo, como era nas epopeias.

2021. Século XXI. Os tempos são outros. O mundo apresenta-se cada vez mais complexo. Os saberes que antes tinham o tempo da demora, da escuta e da maturação, agora são disputados num toque de teclado e imediatizados, flexibilizando inclusive, por vezes, a profundidade e a validação desse conhecimento, devido possivelmente à falta de curadoria com essa nova maneira de intercambiar e aprender.

Ademais, com o advento da internet e a globalização crescente, é difícil delimitarmos as diversas fronteiras, sejam geográficas, sociais, culturais e, até, individuais. Ou seja, onde pode-se dizer que começa o global e termina o local? Onde começa o centro e termina a periferia? Onde começa o erudito e termina o popular? Onde começa o coletivo e termina o individual? Como diria o filósofo norte-americano Marshall Berman (1940-2013) – em referência a outro grande filósofo – com a modernidade, “tudo que é sólido parece se desmanchar no ar”. 

Nessa teia de complexidade, adendada por um contexto de pós-pandemia, vivida tragicamente desde 2020, dois fenômenos se escancaram ao mundo e, especialmente, à educação: o processo de individualização exacerbado e uma busca fulcral pelo resgate das relações sociais, tão afetadas pela necessidade do atendimento ao protocolo de distanciamento social requerido para enfrentar a disseminação do vírus.

Na perspectiva da individualização, por um lado, crescem, dia a dia, os movimentos particulares, bem ilustrados pela quantidade de termos renovados que procuram dizer sobre o “eu mesmo”: autocuidado, autogentileza, auto-prazer, autogestão, autoaprendizagem, além de outras práticas como o “faça você mesmo” e tutoriais. As redes sociais alavancaram ainda mais esse fenômeno, com a exposição massiva de selfs e de vídeos autocentrados. Desse foco todo no “eu”, fazendo as devidas ressalvas, respingam também os inúmeros abalos à saúde mental, além de a tristeza e a solidão inconsoláveis do indivíduo.

Na perspectiva da interação, por outro lado, espaços de socialização, e, entre eles, a escola, do latim schola que significa recreação, lugar dedicado ao ócio, neste mundo tão virtualizado, configura-se, deste modo, cada dia mais como o espaço das trocas por excelência. É na escola que muitos de nós encontramos nossos pares e nossos díspares. Nesse espaço, físico ou virtual, uma chama pode-se acender diariamente, considerando as tantas novas descobertas e fluxo de saberes.

No entanto, esse mesmo espaço tão rico e potente para intercâmbios dos mais diversos, por vários fatores, continua mantendo, geralmente, o conhecimento em compartimentos – disciplinas – muitas vezes descontextualizados e cerrados, elitizando-o, inclusive. O lugar que deveria promover a interação não só entre as pessoas, mas também entre seus saberes parece insistir no dogma, no método e na navalha, quando deveria, em vez disso, buscar romper as fronteiras e proporcionar um saber por inteiro.

 Jacques Prévert (1900-1977), poeta francês libertário de meados do século XX, já alertava para isso e dizia que, ao se demolirem os muros da escola, “o porta-penas voltaria a ser pássaro”, ou seja, este objeto, produto final na produção, retornaria ao seu estado natural de origem, de onde nunca deveria ter se distanciado. Assim, é preciso que a escola se reinvente para oferecer ao estudante, cada vez mais centrado em si, experiências interacionais que ele dificilmente seria capaz de vivenciar sozinho.

Para além da influência desses dois fenômenos, seja da individualização, seja da busca sedenta pela interação, outros atores relevantes se apresentam à cena contemporânea da educação.   O primeiro são as políticas educacionais. Educadores, alunos e familiares assistem cotidianamente a propostas educacionais fadadas ao fracasso porque já se antevê que “não terão continuidade”. Os projetos morrem, mesmo depois de tanto investimento público ou privado, isto é, parece que, mesmo tendo linhas traçadas, as coisas “não andam” por falta de perseverança, estabilidade e durabilidade. Na mesma lógica, muitas vezes os professores ganham expertises nesses projetos que não são devidamente aproveitadas pelas instituições de ensino porque elas mesmas decidem, “como num estalar de dedos” e em um exercício de incompetência, que os rumos deverão ser outros.

Nesse sentido, outro ator da cena educativa é o professor, que deveria ter autonomia para criar e propor suas aulas, mas se vê cada vez mais engessado e amarrado, precisando cumprir burocracias das mais diversas, necessitando seguir apostilas prontas e com o tempo de produção autoral progressivamente negado. Aliás, esse pode ser um dos motivos para o investimento pífio na formação de professores no país, já que, com uma formação limitada, também a autonomia deste profissional se torna passível de negociação.

Há ainda nesse cenário um aluno, uma aluna, que buscam saber, querem conhecer e não se encaixam no modelo escolarizado padrão. Um estudante que precisa entender que um curso tem início, meio e fim e, muitas vezes, na escola tradicional, infelizmente, a ele não é apresentado dessa maneira, e resta um sentimento de “falta de sentido”, porque não se entende de onde se sai e para onde se vai.

Por fim, há também uma linguagem: nós recortamos e percebemos o mundo pela linguagem. O saber escolarizado às vezes se distancia do indivíduo também por conta da linguagem escolhida para transmissão desse conhecimento. A comunicação é a base de qualquer relação social. Se ela não acontece de maneira certeira e potente, provavelmente o resultado ficará prejudicado e gerará ruídos.

Diante de tudo isso: de um mundo globalizado cada vez mais complexo e em busca de uma relação de ensino-aprendizagem libertária que possa fornecer ferramentas encantadoras para a compreensão desse mundo, o rompimento se faz urgente. Aristóteles (384 – 322 a.C), ao experimentar sua escola livre, “o perípato”, já sugeria que o saber poderia advir em grande medida do encontro entre um mestre e o seu discípulo: um saber frutificado pela experiência do diálogo, do afeto e da interação. Dessa forma, mais importante do que os espaços físicos escolares, as corporações, os megaprojetos: são as pessoas. Sem elas, nada faz sentido e nada ganha sentido. Com elas reunidas, ah… é um estouro!

Por isso, o portal Jornadas surge hoje como um desejo profundo de modificação da lógica elitizada, hierarquizada, compartimentada e tecnicista do conhecimento. Surge de um desejo de honrar tantos saberes adquiridos por uma comunidade escolar: um grupo de professores, alunos, funcionários e familiares numa experiência excepcional de educação. Surge numa espécie de compromisso em registrar uma memória para que, afinal, a barragem¹ não leve tudo, ou melhor: a vivência singular desses inúmeros narradores.

O conhecimento, seja ele adquirido de maneira formal ou não formal, reúne as pessoas há muitos séculos. Em volta das fogueiras, nas pescarias, nas caças, nas orações, onde há pessoas, ali se produz a troca de histórias, de saberes que, se sistematizados, podem ser algo ainda mais transmissível. Verdade é que o saber é ancestral, é presente e é sempre um convite ao futuro. Não ratificar a importância desses saberes pode ser o fim: a morte do tempo.

Se ao redor do conhecimento existem muitos atores, como a escola, o professor, o aluno, a família, entre outros, é preciso entender que esses atores não podem ser mais importantes do que o próprio Saber em si. O conhecimento deve ser a bússola para que o herói atravesse sua jornada. Jornadas é o lugar em que esse desejo se materializa e ganha forma. Em nome desse desejo e do compromisso social com o saber construído e sedimentado durante anos e anos de prática pedagógica, Jornadas se inaugura. Aqui está: é Macondo. Pode ser Xangai; É Rio-São Paulo. Pode ser Oiapoque-Chuí; É clássico. Pode ser samba; É romance. E, amanhã, com a ajuda de todos vocês, pode ser epopeia. Vocês todos (as) são os nossos (as) convidados (as). As portas estão abertas. É só ocupar!

Com esperança e carinho,

Equipe catalisadora:
Carla Rênes (CN)
Daniel Lima (MAT)
Eliane Campos (LING)
José Arnaldo Guimarães (LING)
Mateus Xavier (HUM)

REFERÊNCIAS:
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AUERBACH, Eric. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2002.
BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: _____ Magia e Técnica, Arte e Política – ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume I, 2ª edição, São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2007.
CERVANTES DE SAAVEDRA, Miguel: O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Volume I Porto: Livraria Civilização Editora, 1999 (tradução de Daniel Augusto Gonçalves, e Arsénio Mota) – o original El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha;
CERVANTES DE SAAVEDRA, Miguel: O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Volume II Porto: Livraria Civilização Editora, 1999 (tradução de Daniel Augusto Gonçalves, e Arsénio Mota) – o original Segunda Parte Del Ingenioso Cavallero Don Quixote de La Mancha;
FREIRE, Paulo . Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2004.
HOMERO, Ilíada. Tradução Haroldo de Campos. Vol. I e II. São Paulo: Editora ARX, 2003.
HOMERO, Odisséia. São Paulo: Cultrix, 1997.  
LUKÁCS,  Georg. A  teoria  do  romance.  São  Paulo:  Editora  34,  2000.
MANGUEL, A. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de Solidão. Rio de Janeiro: Record, 2012. 
MORIN, Edgar. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. 3ª ed. São Paulo: Cortez, Brasília, 2001. 
NARRADORES de Javé. Direção de Eliane Caffé. Rio de Janeiro: RioFilme, 2004.
PRÉVERT, Jacques.  Œuvres complètes, I, Gallimard, 1992 (“Bibliothèque de la Pléiade”).
RESNICK, M. Jardim de infância para a vida toda: por uma aprendizagem criativa, mão na massa e relevante para todos. Porto Alegre: Penso, 2020. ROJO, Roxane Helena Rodrigues; MOURA, Eduardo (orgs.). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012.

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